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ENVELHECEMOS, AMADURECEMOS OU FRUÍMOS A VIDA?

 

Outono é a minha estação preferida! O dia começa com uma brisa levemente gelada e seu epílogo tem pores de sol com muitos tons de laranja, vermelho, púrpura… Entre o começo e o fim, um céu azul de tirar o fôlego. E, como diz uma amiga, “o céu azul induz à felicidade”.

Nessas horas rendo graças a esses pequenos prazeres e êxtases gratuitos que só sentimos quando nos permitimos desconectar um pouco da correria do dia a dia e contemplar. Diante de tanta beleza e magnitude brota um sentimento de gratidão, que traz consigo uma espécie de autocobrança positiva e que vem numa roupagem de reflexão sobre a vida: o que estou fazendo com a minha? Estou apenas envelhecendo, amadurecendo ou evoluindo?

Queria ter a certeza de estar na terceira opção! Pra envelhecer não precisamos fazer muita coisa; basta sobreviver e o tempo se encarrega do restante. Amadurecer já requer certo esforço de nossa parte, aproveitando as situações boas e não tão boas que a vida nos coloca e aprender com elas. Mas evoluir… essa sim é a “top”!

Amadurecer é chegar a um estágio emocional e intelectual compatível com a idade cronológica que se tem. Evoluir é ir mais além: é desabrochar suas potencialidades internas, sejam elas quais forem; é fazer positivamente a diferença na sua vida e na daqueles que estão ao seu redor. Melhor ainda, no mundo todo.

É tonar-se um ser único. Procurar ser integrado e não perfeito, pois perfeição é aquele horizonte inatingível, e integração é o reconhecimento e trabalho diplomático entre os opostos conflitantes que existem na alma humana, resumidos como “bem e mal”.

A vida é como um videogame. Começamos na fase mais básica: sobrevivemos e envelhecemos. Conforme nos predispomos a aprender com as nossas experiências, vamos ao nível intermediário; passamos a viver e a amadurecer. Se quisermos ir além, buscar algo mais profundo, passamos para a etapa mais avançada: pensamos em evoluir, em nos superar, em deixar um legado, ser uma espécie de “marca registrada” humana.

Como neste jogo, as fases são cumulativas. Todos envelhecem; nem todos amadurecem. Evoluir, talvez menos ainda. Os que estão nesse terceiro nível fruem a vida, e perseguem um sentido e propósito para sua existência no tempo-espaço. “Sentido” e propósito” são as duas palavras que, para mim, melhor definem “felicidade”.

Dias de outono naturalmente me fazem refletir sobre a vida. Sem aquele peso de exames bimestrais nem a tensão da dicotomia “aprovado-reprovado”; apenas para buscar reorientações e poder aperfeiçoá-la. E eu me pergunto: Qual tem sido a minha trilha sonora? “Deixa vida me levar, vida leva eu”, “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriéééééélaaaaaa” ou “E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”. CeuAzul.jpg

Curioso que, sem nos darmos conta, esta reflexão traz implícita a ideia de morte. Mesmo que nela não pensemos diretamente, lá está ela, camuflada, pois é o reverso desta medalha. É ela quem traz a consciência da finitude, e de que temos um tempo determinado para decidir o que e como viver. Se fôssemos eternos, talvez esses questionamentos perderiam seu sentido.

Pensar na morte tem um aspecto salutar: obriga-nos a olhar para a vida e tentar extrair desta o melhor. Por isso os filósofos de todas as épocas a colocam no centro de suas ideias. Como muito acertadamente escreveu a professora de filosofia Maria Lucia Cacciol, “a morte é a musa da filosofia”. Similia similibus curantur, ou “semelhante pelo semelhante se cura”. A ideia da morte acaba combatendo a própria morte em vida, ou uma vida morta, sem propósitos, sem significado, sem felicidade.

Com sua sombra aterrorizante, ela nos questiona se estamos sobrevivendo, vivendo ou aproveitando nossa existência. O termo “aproveitar” vem da palavra latina “provectus”, que significa “proveito, progresso”, e que por sua vez deriva de “proficere”, “ter progresso, ser útil”. Esta palavra vem de “pro”, “à frente”, mais “facere”, “fazer”. Fazer à frente, fazer mais do que se é esperado. Esse é o sentido intrínseco de evoluir, oitava superior de viver, que vai muito além de sobreviver.

“Aproveitar” também dá a conotação de “prazer”. Porque viver tem que ser prazeroso. Evoluir não deve ser encarado como um sacrifício, mas sim um sacro ofício de superar a si mesmo e tornar-se mais e melhor do que se é. E isso, mesmo com todos os esforços envolvidos, resulta em satisfação, sentido.

Para sobreviver viemos “equipados” com os instintos, notadamente o de sobrevivência. Viver já envolve desejos, que são os gatilhos propulsores das emoções (do latim emovere, o que nos faz mover), mas de um alcance não tão profundo. A vontade é a grande força que vence obstáculos, é obstinada, aceita provações em prol de seus objetivos e busca o melhor aproveitamento da vida. A sabedoria popular intuitivamente reconhece isso através da expressão “força de vontade”, e não “força de desejo”!

Às vezes me surpreendo frente à capacidade da vida e da natureza, nas suas simplicidade e beleza, de provocarem reflexões tão profundas em nós. Um dia de outono, com todo seu esplendor, muitas vezes desperta uma das maiores virtudes, a gratidão, que encerra com chave de ouro um desenrolar de fatos na expressão final “muito obrigado”. Gratidão como atributo daqueles que sabem reconhecer: dificilmente os que apenas sobrevivem, às vezes os que vivem, e com certeza os que fruem e evoluem.

Ocaso2.jpg Fonte: http://www.taringa.net/post/info/18433658/Tengo-transtorno-de-soledad-y-te-lo-cuento.html