vipassana

Vipassana

Vipassana, que significa ver as coisas como efetivamente são, é uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia. Foi redescoberta por Gótama, o Buda, há mais de 2500 anos e era ensinada como remédio universal para doenças universais, isto é, a Arte de Viver.

Esta técnica não sectária tem por objetivo a total erradicação das impurezas mentais e a resultante mais elevada felicidade da libertação completa.

Vipassana é um caminho de autotransformação através da auto-observação. Concentra-se na profunda interconexão entre a mente e o corpo, que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada das sensações físicas que formam a vida do corpo e que continuamente interconectam e condicionam a vida da mente. É esta jornada baseada na observação, na auto-exploração da raiz comum da mente que dissolve a impureza mental, resultando em uma mente equilibrada repleta de amor e de compaixão.

As leis científicas que operam nossos pensamentos, sentimentos, julgamentos e sensações se tornam claras. Através da experiência direta, a natureza de como progredimos ou regredimos, de como geramos sofrimento ou como nos livramos do sofrimento é compreendida. A vida passa a ser caracterizada pela consciência expandida, pelo não delírio, pelo autocontrole e pela paz.

A Tradição

Desde o tempo do Buda, Vipassana tem sido passada adiante, até nossos dias, por uma corrente inquebrantável de professores. Embora indiano de descendência, o professor principal nesta corrente,  S.N. Goenka, nasceu e foi criado em Myanmar. Enquanto lá viveu, teve a sorte de aprender Vipassana de seu professor, Sayagyi U Ba Khin, que era naquela época um funcionário público graduado. Após ter recebido treinamento de seu professor por quatorze anos, Goenka se estabeleceu na Índia e começou a ensinar Vipassana em 1969. Desde então, ensinou dezenas de milhares de pessoas de todas as raças e de todas as religiões, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Em 1982, começou a nomear professores assistentes a fim de ajudá-lo a atender à crescente demanda por cursos de Vipassana.

Os cursos

A técnica é ensinada em cursos residenciais de dez dias, durante os quais os participantes seguem um prescrito Código de Disciplina, aprendem os fundamentos do método e praticam o suficiente a fim de experimentar seus resultados benéficos

O curso requer trabalho sério e árduo. Existem três passos para o treinamento. O primeiro passo é, durante o período do curso, abster-se de matar, roubar, atividade sexual, falsa conversa e intoxicantes. Este código simples de conduta moral serve para acalmar a mente, que, de outra forma, ficaria agitada demais para desempenhar a tarefa da auto-observação. O próximo passo é o de desenvolver algum domínio sobre a mente, ao aprender a fixar nossa atenção na realidade natural do fluxo de respiração sempre em eterna mudança, tal como entra, tal como sai das narinas. Quando chega o quarto dia, a mente está mais calma e mais concentrada, mais capaz de experimentar a prática de Vipassana em si, observando as sensações por todo o corpo, compreendendo sua natureza e desenvolvendo equanimidade ao aprender a não reagir a elas. Por fim, no último dia completo, os participantes aprendem a meditação do amor compassivo ou da boa vontade com relação a todos, na qual a pureza desenvolvida durante o curso é compartilhada com todos os seres.

Toda a prática é, na verdade, um treinamento mental. Tal qual usamos o exercício físico para melhorar nossa saúde corporal, Vipassana pode ser usada para desenvolver uma mente saudável.

Tendo em vista ter sido considerada genuinamente útil, grande ênfase é dada na preservação desta técnica em sua forma original e autêntica. Não é ensinada comercialmente, mas, em vez disso, oferecida gratuitamente. Nenhuma pessoa envolvida em seu ensinamento recebe qualquer tipo de remuneração material. Não existe cobrança de taxas pelos cursos – sequer para cobrir os custos da comida e da acomodação. Todas as despesas são pagas pelas doações de pessoas que, tendo concluído um curso e experimentado os benefícios de Vipassana, querem dar a outras pessoas a oportunidade de se beneficiar igualmente dela.

É óbvio que os resultados surgem gradualmente por intermédio da continuidade da prática. É irrealista esperar que todos os problemas sejam resolvidos em dez dias. Nesse período, contudo, os fundamentos de Vipassana podem ser aprendidos a fim de serem aplicados no dia a dia. Quanto mais praticarmos a técnica, mais nos libertamos dos sofrimentos e cada vez mais nos aproximaremos do objetivo supremo da completa libertação. Mesmo dez dias podem gerar resultados que são evidentes e obviamente benéficos no dia a dia.

Todas as pessoas sinceras são bem-vindas para frequentar um curso de Vipassana a fim de ver por si mesmas como a técnica funciona e avaliar os benefícios. Todos aqueles que a experimentem, descobrirão que Vipassana é uma ferramenta valiosa, com a qual poderão alcançar e compartilhar a verdadeira felicidade com os outros.

S. N. Goenka

Antecedentes

S.N. Goenka
Satya Narayan Goenka foi o mais importante professor de meditação Vipassana de nossos tempos.

Embora de descendência indiana, Goenka nasceu e foi criado em Myanmar (Birmânia). Enquanto lá vivia, teve a boa sorte de entrar em contato com Sayagyi U Ba Khin e de aprender por seu intermédio a técnica de Vipassana. Após ter recebido treinamento de seu professor durante 14 anos, Goenka se estabeleceu na Índia e começou a ensinar Vipassana em 1969. Em um país radicalmente dividido por diferenças de castas e de religião, os cursos oferecidos por Goenkaji logo atraíram milhares de pessoas de toda sociedade. Além disso, muitas pessoas de países em todo o mundo vieram frequentar cursos de meditação Vipassana.

Durante um período de quase 45 anos, Goenka e os professores por ele nomeados ensinaram centenas de milhares de pessoas nos cursos na Índia e nos outros países, no Ocidente e no Oriente. Hoje em dia, centros de meditação estabelecidos sob sua orientação estão operando na Ásia, na Europa, nas Américas, na África e na Oceania.

A técnica ensinada por S. N. Goenka remonta há dois mil e quinhentos anos, à época do Buda. O Buda jamais ensinou religião sectária. Ensinou Dhamma – o caminho da libertação – que é universal. Na mesma tradição, a abordagem de Goenka é totalmente não-sectária. Por esta razão, seu ensinamento tem tido profundo apelo junto das pessoas de diversas formações, de todas as religiões e de nenhuma religião e de todas as partes do mundo.

Goenka foi outorgado com muitos prêmios e honrarias durante sua vida, inclusive, a prestigiosa Padma Awards da Presidente da Índia, em 2012. Esta é uma das mais elevadas honrarias civis outorgadas pelo governo da Índia.

Satya Narayan Goenka deu seu último suspiro em setembro de 2013, aos 89 anos. Deixou atrás de si um legado inextinguível: a técnica de Vipassana, agora disponível mais amplamente do que antes, a todas as pessoas no mundo inteiro.

Cúpula pela Paz das N.U.

 

No verão de 2000, Goenka, o professor mais importante de Meditação Vipassana visitou os Estados Unidos e discursou, juntamente com outros líderes espirituais, na “Cúpula do Milênio para a Paz no Mundo” na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.”

A palestra de Goenka, na sessão intitulada Transformação do Conflito, deu ênfase aos temas da harmonia religiosa, tolerância e coexistência pacífica.

“Em vez de converter pessoas de uma religião organizada para outra religião organizada,” disse o sr. Goenka,  “deveríamos tentar converter pessoas do sofrimento para a felicidade, do cativeiro para a liberdade e da crueldade para a compaixão.”

Goenka proferiu sua palestra durante a sessão da tarde da Cúpula a um grupo que incluía aproximadamente dois mil delegados e observadores. Goenka falou na sessão que sucedeu a palestra do Ted Turner, fundador da CNN. Turner é um dos patrocinadores financeiros da Cúpula.

Em consonância com o tema da Cúpula de buscar a paz no mundo, Goenka enfatizou em sua palestra que a paz no mundo não pode ser alcançada, a menos que haja paz no interior dos indivíduos. “Não pode haver paz no mundo, quando as pessoas têm ódio e raiva em seus corações. Somente com amor e com compaixão no coração a paz no mundo será alcançada.”

Um aspecto importante da Cúpula é o esforço de reduzir o conflito e a tensão sectários. Com relação a isto, Goenka disse: “Quando há ódio e raiva internamente, sofremos independentemente de sermos cristãos, hinduísta ou muçulmano.”

Da mesma forma, declarou a uma plateia calorosa, “Se tivermos amor e compaixão com coração puro, experimentaremos o Reino dos Céus internamente. Esta é a lei da natureza, ou, se preferirem, a vontade de Deus.”

Apropriadamente, a uma multidão que incluía os mais importantes líderes religiosos do mundo, disse: “Concentremo-nos no denominador comum de todas as religiões, na essência interior de de todas as religiões que é a pureza de coração. Todos nós devemos dar importância a este aspecto da religião e evitar conflito com relação ao rótulo exterior das religiões, que são os vários ritos, rituais, festivais e dogmas.“

Recapitulando, Goenka citou o Imperador Ashoka que, em um de seus éditos em pedra disse: “Devemos não somente honrar nossa própria religião e condenar as outras religiões. Em vez disso, devemos honrar as outras religiões por diversas razões. Ao fazer isso, ajudamos a nossa própria religião a crescer e também prestamos serviço às religiões dos outros. Do contrário, cavaremos a sepultura de nossa própria religião e prejudicaremos outras religiões também. Alguém que honre sua própria religião e condene outras religiões, pode fazer isso por devoção à sua religião, pensando: “Glorificarei minha religião”, mas tal ação fere sua própria religião ainda mais gravemente. A concórdia é boa. Escutemos e estejamos dispostos a escutar as doutrinas professadas pelos outros.”

O Secretário Geral das N. U., Kofi Annan, chamou a Cúpula “uma assembleia dos líderes religiosos e espirituais mais proeminentes do mundo em conclamação pela paz que será felizmente fortalecerá as perspectivas de paz, à medida que entremos no novo milênio.

Líderes espirituais que foram convidados para a primeira conferência das N.U. Já convocada deste tipo, inclui Pramukh Swami do Swami Narayana Movement, Swami Dayananda Saraswati, Swami Agniwesh, Mata Amritanandamayi Devi e Dada Wasvani, bem como estudiosos eminentes tais como Karan Singh e L. M. Singhvi.

Com referência à diversidade cultural e religiosa dos participantes, Annan disse “as N.U. É uma tapeçaria, não só de ternos e de saris, mas de golas de clérigos, hábitos de monjas mantos de lamas, mitras, solidéus e yarmulkes.”

Embora Annan tenha sido repetidamente questionado sobre a ausência dos líderes tibetanos, tentou dirigir as perguntas de volta para o objetivo da cúpula, sobre a qual declarou “para restaurar o seu papel legítimo como provedor da paz e pacifista – o problema do conflito jamais é a bíblia ou o torah ou o corão. De fato, o problema jamais é a fé – são os fiéis e como nos comportamos com relação aos outros e com nós mesmos. Você deve, uma vez mais, ensinar seus fiéis os caminhos da paz e os caminhos da tolerância.”

A esperança dos líderes das N.U. É a de que 83% da população mundial abrace um sistema de fé religiosa ou espiritual formal. Tais líderes religiosos podem influenciar seus seguidores na direção da paz.

As N.U. Esperam que a conferência mudará a comunidade mundial na direção, segundo palavras de um documento, “do reconhecimento de seu potencial espiritual e do reconhecimento de que está no âmbito de seu poder erradicar a forma mais danosa de brutalidade humana – guerra – bem como uma das principais causas da guerra – pobreza. O momento chegou para os líderes espirituais do mundo trabalharem mais proximamente com as Nações Unidas nesse esforço de atender às urgentes necessidades da humanidade.”

A cúpula terminará nesta quinta-feira, dia 31 de agosto, quando os participantes assinarão uma Declaração pela Paz no Mundo e formarão um Conselho Consultivo Internacional de Líderes Espirituais, que trabalhará com as Nações Unidas e com o Secretário-Geral das N.U. Nos esforços para a manutenção da paz e pela geração da paz no mundo.

O objetivo do Conselho Consultivo Internacional de Líderes Religiosos e Espirituais é o de garantir e o de fortalecer o trabalho das Nações Unidas, disse Bawa Jain, Secretário-Geral da Cúpula pela Paz no Mundo. “É nossa esperança maior que, em tempos de conflito, os líderes religiosos e espirituais mais importantes do mundo possam se lançar de para-quedas nestes pontos problemáticos, a fim de buscar resoluções não violentas para os conflitos.”

https://www.youtube.com/watch?v=Xy9PugTy15M

Quando há escuridão, a luz é necessária. Hoje em dia, com tanta agonia causada pelo conflito violento, pela guerra e pelo derramamento de sangue, o mundo necessita urgentemente de paz e de harmonia. Este é um grande desafio para os líderes religiosos e espirituais. Aceitemos tal desafio.

Toda religião tem um aspecto ou envólucro exterior e uma essência ou um núcleo interior. O envólucro exterior consiste de ritos, rituais, cerimônias, crenças, mitos e doutrinas. Variam de religião para religião. Mas existe um núcleo comum para todas religiões: os ensinamentos universais de moralidade e de caridade, de uma mente disciplinada e pura cheia de amor, compaixão, boa vontade e tolerância. É este denominador comum que os líderes religiosos devem enfatizar e que seus seguidores devem praticar. Se a importância devida for dada à essência de todas as religiões e uma maior tolerância for mostrada sobre seus aspectos superficiais, o conflito pode ser minimizado.

Todas as pessoas devem ser livres para professar e seguir sua fé. Ao fazerem isso, contudo, devem ter cuidado a fim de não negligenciar a prática da essência de sua religião, não perturbar os outros pela prática de suas próprias religiões e não condenar ou depreciar outras fés.

Dada a diversidade das crenças, como superar as diferenças e alcançar um projeto concreto para a paz? O Buda, o Iluminado, sempre era procurado por pessoas de diferentes visões. Para elas, diria “Deixemos de lado nossas diferenças. Demos atenção ao que possamos acordar e o coloquemos em prática. Por que discutir?” Este sábio conselho ainda retem sua importância hoje em dia.

Venho de uma antiga terra que deu origem a muitas diferentes escolas de filosofia e de espiritualidade através de milênios. Apesar de episódios isolados de violência, meu país tem sido modelo de coexistência pacífica. Há cerca de 2300 anos, era governado por Ashoka, o Grande, cujo império se estendia do que hoje conhecemos como Afeganistão até Bangladesh. Por todo reino, este dirigente compassivo emitiu éditos a serem gravados em pedra, proclamando que todas as crenças deveriam ser respeitadas e, como resultante, os seguidores de todas as tradições espirituais se sentiram seguras sob sua influência. Ele solicitou às pessoas viver uma vida de moralidade, respeitar pais e anciãos e abster-se de matar. As palavras que utilizou para exortar tais assuntos são ainda relevantes hoje em dia.

Não devemos honrar nossa própria religião e condenar outras religiões. Em vez disso, devemos honrar outras religiões por várias razões. Ao fazermos isso, ajudamos nossa própria religião a crescer e também prestamos serviço às religiões dos outros. Agindo de maneira diferente, cavamos a sepultura de nossa própria religião e prejudicamos outras religiões igualmente. Alguém que honre sua própria religião e condene outras religiões pode fazer isso por devoção à sua própria religião, pensando, “Glorificarei minha religião”, mas suas ações ferem sua própria religião mais gravemente. Concórdia é bom. Ouçamos e estejamos disponíveis para ouvir as doutrinas professadas por outros. (Édito em pedra 12)

O imperador Ashoka representa a gloriosa tradição de coexistência pacífica e de síntese pacífica. Tal tradição vive entre governantes e dirigentes de hoje em dia. Um exemplo é o do monarca de Omã, que doou terras para igrejas e templos de outras crenças, enquanto pratica sua própria religião com toda devoção e toda diligência. Estou seguro de que tais dirigentes e governadores compassivos continuarão surgindo em muitas terras em todo mundo. Como é dito: “Abençoados são os construtores da paz, pois serão chamados de filhos de Deus.”

É tudo muito claro de que os devotos da violência primeiramente ferem seus próprios conhecidos e entes. Podem fazer isso diretamente, por intermédio de sua intolerância ou indiretamente, provocando uma reação violenta às suas ações. Por outro lado, diz-se, “Abençoados são os misericordiosos, pois obterão perdão.” Esta é a lei da natureza. Pode igualmente ser chamado de decreto do caminho de Deus. O Buda disse: “Animosidade pode ser erradicada não pela animosidade, mas somente pelo seu oposto. Esta é uma eterna lei espiritual do Dhamma “O que é chamado Dhamma na Índia nada tem a ver com hinduísmo, budismo, jainismo, cristianismo, islamismo, judaismo, sikhismo ou qualquer outro “ismo”. É esta a simples verdade: antes de ferir outros, você primeiramente fere a si próprio gerando negatividade mental e removendo a negatividade, poderá encontrar a paz e fortalecer a paz no mundo.

Paz na mente para paz no mundo

Toda religião que faça juz do nome conclama seus seguidores a viver uma vida moral e ética, a fim de alcançar o controle da mente e a fim de cultivar a pureza do coração. Uma tradição nos diz, “Ame seu vizinho”, outra diz Salaam walekum – “Que a paz esteja consigo”, outra ainda diz Bhavatu sabbamangalam ou Sarve bhavantu sukhinah – “Que todos os seres sejam felizes.” Seja a bíblia, seja o corão, seja o gita, as escrituras conclamam a paz e a amizade. De Mahavir a Jesus, todos os grandes fundadores das religiões tem tido ideais de tolerância e de paz. No entanto, nosso mundo está sempre tomado pela disputa religiosa e sectária. Ou até mesmo pela guerra, tendo em vista que damos importância somente ao envólucro externo da religião e negligenciamos sua essência. O resultado é a falta de amor e de compaixão na mente.

A paz no mundo não pode ser alcançada , a menos que haja paz no interior dos indovíduos. Agitação e paz não podem co-existir. Um caminho para alcançar a paz interior é Vipassana ou meditação da visão introspectiva – uma técnica de auto-observação e de realização da verdade não-sectária, científica, voltada para resultados. A prática desta técnica traz compreensão experimental de como a mente e o corpo interagem. Toda vez que a negatividade surgir na mente, tais como a raiva, dispara sensações desagradáveis dentro do corpo. Toda vez que a mente gera amor desinteressado, compaixão e boa vontade, todo o corpo é inundado por sensações agradáveis. A prática de Vipassana também revela que a ação mental precede toda ação física e vocal, determinando se a ação será saudável ou insalubre. A mente é o que importa. É por isso que devemos encontrar métodos práticos para tornar a mente pacífica e pura. Tais métodos amplificarão a eficácia da declaração conjunta que surgirá desta Cúpula pela Paz no Mundo.

A Índia antiga deu duas práticas para o mundo. Uma é o exercício físico das posturas da ioga (asanas) e o controle da respiração (pranayama) a fim de manter o corpo saudável. A outra é o exercício mental de Vipassana a fim de manter a mente saudável. As pessoas de qualquer fé podem e efetivamente praticam estes dois métodos. Ao mesmo tempo, podem seguir suas próprias religiões em paz e em harmonia. Não há qualquer necessidade de conversão, uma fonte comum de tensão e de conflito.

Para a sociedade se tornar pacífica, cada vez mais membros da sociedade devem se tornar pacíficos. Como líderes, temos a responsabilidade de servir de exemplo. De ser uma inspiração. Um sábio uma vez disse “Uma mente equilibrada é necessária para equilibrar a mente desequilibrada dos outros.”

Mais amplamente, uma sociedade em paz encontrará um caminho para viver em paz com seus congêneres naturais. Todos nós compreendemos a necessidade de proteger o meio ambiente, de cessar de poluí-lo. O que nos impede de agir neste sentido é o estoque de poluentes mentais, tais como a ignorância, a crueldade e a ganância. Ao removermos tais poluentes, promoveremos a paz entre os seres humanos, bem como um relacionamento equilibrado e saudável entre a sociedade dos homens e seu meio ambiente natural. É assim que a religião pode fomentar a proteção do meio ambiente.

Não-violência: a chave para a definição de religião

Sempre há diferenças entre religiões. No entanto, ao reunir nesta Cúpula pela Paz no Mundo os líderes das mais importantes crenças, demonstram que desejam trabalhar pela paz. Deixemos, então, a paz ser o primeiro princípio da “religião universal.” Deixemo-nos declarar juntos que devemos nos abster de matar, que condenemos a violência. Também conclamo os líderes mundiais a aderirem a esta declaração, tendo em vista o papel chave que desempenham ao trazerem paz ou guerra. Quer se unam quer não a nós, pelo menos, deixem-nos fazer um voto aqui e agora, em vez de fechar os olhos para a violência e para a matança. Deixem-nos declarar que condenamos incondicionalmente tais atos, especialmente a violência perpetrada em noma da religião.

Certos líderes espirituais tem tido a sagacidade e a coragem de condenar a violência perpetrada em nome de sua própria fé. Pode haver diferentes visões filosóficas e teológicas do ato de buscar perdão ou arrependimento pela violência e pela matança do passado, mas o verdadeiro reconhecimento da violência perpetrada no passado indica que foi um erro e que não será mais ignorado no futuro.

Sob a égide das Nações Unidas, deixem-nos tentar formular uma definição de religião e de espiritualidade com ênfase na não-violência e recusando-nos a encorajar a violência e a matança. Não haveria maior infortúnio para a humanidade do que o fracasso de se definir religião como sinônimo de paz. Esta cúpula poderia propor um conceito de “religião universal” ou “espiritualidade não-sectária” para endosso das Nações Unidas.

Estou seguro de que esta cúpula ajudará a concentrar a atenção do mundo no verdadeiro propósito da religião;

A religião não nos segrega;
ensina-nos paz e pureza de coração.

Congratulo os organizadores desta cúpula histórica pela sua visão e pelos seus esforços. E congratulo os líderes religiosos e espirituais que tiveram a maturidade de trabalhar pela reconciliação, dando esperança à humanidade de que a religião e a espiritualidade levarão a um futuro de paz.

Que todos os seres se livrem da aversão e sejam felizes.

Que a paz e a harmonia prevaleçam.

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A arte de viver: Meditação Vipassana

O seguinte texto é baseado em uma palestra proferida por S.N. Goenka em Berna, Suíça.

Todos buscam paz e harmonia porque é isto o que falta em nossas vidas. De tempos em tempos, todos nós experimentamos agitação, irritação, desarmonia. E, quando experimentamos estes sofrimentos, não os mantemos para nós mesmos, sempre os distribuimos também aos outros. A infelicidade permeia a atmosfera em torno de alguém que esteja sofrendo e aqueles que entram em contato com tal pessoa também são afetados. Certamente, não é um meio hábil de viver.

Devemos viver em paz com nós mesmos e em paz com os outros. Afinal de contas, os seres humanos são seres sociais e têm de viver em sociedade e coniver uns com os outros. Mas como viver a vida em paz? Como permenecer em harmonia internamente e manter a paz e a harmonia à nossa volta de modo a permitir que os outros também possam viver em paz e em harmonia?

Para nos aliviar de nosso sofrimento, temos de conhecer a razão básica para isso, a causa do sofrimento. Se investigarmos o problema, fica claro que, sempre começarmos a gerar qualquer negatividade ou impureza na mente, estaremos fadados a nos tornar infelizes. Uma negatividade na mente, uma impureza mental não podem coexistir com a paz e a harmonia.

Como começamos a gerar negatividade? Novamente, pela investigação, isto se torna claro. Tornamo-nos infelizes, quando descobrimos alguém se comportando de uma maneira que não aprovamos ou quando descobrimos algo que esteja acontecendo e que não nos agrade. Coisas indesejáveis ocorrem e geramos tensão interna. Coisas desejadas não ocorrem, algum obstáculo surge à frente e, novamente, geramos tensão interna. Começamos a atar nós internamente. E através da vida, coisas indesejáveis continuam ocorrercoisas desejáveis podem ou não ocorrer, e este processo de reagir, de atar nós – nós górdios – torna toda a estrutura mental e física tão tensa, tão cheia de negatividade, que a vida se torna um sofrimento.

Agora, uma maneira de resolver este problema é a de dar um jeito para que nada indesejável ocorra na vida, que tudo continue a acontecer exatamente como desejamos. Devemos ou desenvolver o poder ou outro alguém deverá vir em nosso auxílio deva ter o poder de garantir que coisas indesejáveis não ocorram e que tudo que desejemos ocorra. Mas isto é impossível. Não há ninguém no mundo, cujos desejos sejam sempre satisfeitos, cuja vida transcorra sempre segundo seus desejos, sem que qualquer coisa indesejável ocorra. As coisas ocorrem geralmente no sentido de se contraporem aos nossos desejos e vontades. Por conseguinte, a pergunta surge: como podemos parar de reagir cegamente, quando confrontados com coisas de que não gostamos? Como podemos parar de criar tensão e permanecermos em paz e em harmonia?

Na Índia, bem como em outros países, santos sábios do passado estudaram este problema – o problema do sofrimento – e descobriram a solução. Se algo indesejável ocorrer e você começar a reagir gerando raiva, medo ou qualquer negatividade, então, tão logo seja possível, você deve desviar sua atenção para alguma outra coisa. Por exemplo, levante-se, beba um copo de água, comece e beber – sua raiva não se multiplicará, pelo contrário, começará a ceder. Ou comece a contar um, dois, três, quatro. Ou comece a repetir uma palavra ou uma frase ou algum mantra, talvez o nome de um deus ou de um santo a quem seja devoto. A mente se desvia e, até certo ponto, você estará livre da negatividade, livre da raiva.

Esta solução foi útil: funcionou e ainda funciona. Comportando-se dessa maneira, a mente se sente livre de agitação. No entanto, a solução funciona somente no nível da consciência. De fato, ao desviar a atenção, você empurra a negatividade profundamente para dentro do inconsciente. E lá você continua a gerar e a multiplicar a mesma impureza. Na superfície, há uma camada de paz e de harmonia, mas nas profundezas da mente, existe um vulcão adormecido de negatividade reprimida que, mais cedo ou mais tarde, poderá entrar em erupção por intermédio de violenta explosão.

Outros exploradores da verdade interior foram ainda mais fundo em sua busca e, ao experimentarem a realidade da mente e da matéria internamente dentro de si mesmos, reconheceram que desviar a atenção é somente fugir do problema. Fugir não é a solução. Você tem de enfrentar o problema. Sempre que a negatividade surgir na mente, apenas a observe, enfrente-a. Tão logo você comece a observar uma impureza mental, ela começará a perder força e lentamente definhará.

Uma boa solução; ela evita os dois extremos – supressão e expressão. Enterrar a negatividade no subconsciente não a erradicará e permitir que se manifeste como ações insalubres físicas ou vocais criará somente mais problemas. Mas se você apenas observar, então, a impureza desaparecerá e você estará livre dela.

 

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Isto soa maravilhosamente bem, mas é efetivamente prático? Não é fácil enfrentar nossas próprias impurezas. Quando surge a raiva, somos imediatamente controlados que sequer percebemos. Então, subjugados pela raiva, praticamos ações físicas ou vocais que nos prejudicam e que prejudicam os outros. Mais tarde, quando passa a raiva, começamos a chorar e a nos arrepender, pedindo perdão a esta ou àquela pessoa ou a Deus: “Ó, cometi um erro, perdoe-me, por favor!” Mas, na próxima vez, nos encontramos em situação semelhante. Reagimos da mesma maneira. Este arrependimento contínuo não nos ajuda de maneira alguma..

A dificuldade é a de que não estamos conscientes, quando a negatividade surge. Começa profundamente na mente inconsciente e no momento em que alcança o nível consciente, ganhou tanta força que nos domina. E não podemos observá-la.

Suponha que empregue um secretário, de modo que, sempre a raiva surgir, ele me dirá “Veja, a raiva está surgindo!” Uma vez que não posso saber quando esta raiva surgirá, precisarei contratar três secretários particulares em três turnos, 24 horas por dia! Digamos que possa arcar com esta despesa. E que a raiva comece a surgir. Imediatamente, meu secretário me diz: “Ó, veja – a raiva surgiu!” A primeira coisa que farei será repreendê-lo. “Seu tolo! Você está sendo pago para me ensinar?” Estou tão dominado pela raiva que um bom conselho não ajudará.

Suponha que a sabedoria efetivamente prevaleça e que eu não o repreenda. Em vez disso, digo, “Muito obrigado. Agora devo me sentar e observar minha raiva.” Mesmo assim, ísto é possível? Tão logo feche meus olhos e tente observar a raiva, o objeto da raiva imediatamente surge em minha mente — a pessoa ou o incidente que deu início à raiva. Então, não estou observando a raiva propriamente dita, estou meramente observando o estímulo externo daquela emoção. Isto somente servirá para multiplicar a raiva e, consequentemente, não é solução. É muito difícil observar qualquer negatividade abstrata, emoção abstrata, divorciada do objeto exterior que originalmente gerou seu surgimento.

No entanto, alguém que tenha alcançado a verdade suprema encontrou a verdadeira solução. Ele descobriu que, sempre que surgir alguma impureza na mente, fisicamente duas coisas começam a se manifestar simultaneamente. Uma é que a respiração perde seu ritmo natural. Começamos a respirar mais intensamente, sempre que a negatividade surge na mente. Isto é fácil de observar. No nível mais sutil, uma reação bioquímica surge no corpo, resultando alguma sensação. Cada impureza gera uma ou outra sensação dentro do corpo.

Isto apresenta uma solução prática. Uma pessoa comum não é capaz de observar as impurezas abstratas da mente – medo abstrato, raiva abstrata ou paixão abstrata. Mas, com o treinamento apropriado e com a prática, é muito fácil observar a respiração e as sensações no corpo, ambas diretamente relacionadas às impurezas mentais.

Respiração e sensações ajudarão de duas formas. Primeiramente, funcionarão como secretários particulares. Tão logo surja uma negatividade na mente, a respiração perderá sua normalidade. Começará a gritar: “Veja, algo está errado!” E não podemos repreender a respiração. Temos de aceitar a advertência. Da mesma maneira, as sensações nos dirão que algo está errado. Então, tendo sido advertidos, poderemos começar a observar a respiração, começar a observar as sensações e, muito rapidamente, descobriremos que a negatividade desaparecerá.

Este fenômeno físico-mental é como uma moeda com duas faces. Em uma face, estão os pensamentos e as emoções surgindo na mente. Na outra, estão a respiração e as sensações no corpo. Quaisquer pensamentos ou emoções, quaisquer impurezas que surgirem, se manifestam na respiração e nas sensações daquele momento. Assim, ao observarmos a respiração ou as sensações, estaremos, de fato, observando as impurezas mentais. Em vez de fugir do problema, estaremos enfrentando a realidade tal qual é. Como resultado, descobriremos que tais impurezas perdem sua força. Elas não mais nos dominam como faziam no passado. Se persistirmos, elas eventualmente desaparecerão completamente e começaremos a viver uma vida cheia de paz e de felicidade. Uma vida cada vez mais livre de negatividades.

Desta maneira, a técnica de auto-observação nos mostra a realidade sob estes dois aspectos, interior e exterior. Anteriormente, apenas olhávamos para o exterior, negligenciando a verdade interior. Sempre olhávamos para fora em busca da causa de nossa infelicidade. Sempre culpávamos e tentávamos mudar a realidade exterior. Sendo ignorantes sobre a realidade interior, jamais compreendíamos que a causa do sofrimento jaz em nosso interior, em nossas reações cegas com relação às sensações agradáveis e desagradáveis.

Agora, com treinamento, podemos enxergar a outra face da moeda. Podemos estar conscientes de nossa respiração e também do que está acontecendo internamente. Seja o que for, respiração ou sensação, aprendemos apenas a observá-la, sem perder nosso equilíbrio mental. Paramos de reagir e de multiplicar nosso sofrimento. Em vez disso, permitimos que as impurezas se manifestem para desaparecer.

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Quanto mais praticarmos a técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecerão. Gradualmente, a mente se torna livre das impurezas, torna-se pura. Uma mente pura é sempre cheia de amor – amor desinteressado pelos outros, cheia de compaixão pelos defeitos e pelo sofrimento dos outros, cheia de alegria com seu sucesso e com sua felicidade, cheia de equanimidade frente a qualquer situação.

Quando alcançamos este estágio, todo padrão de nossa vida muda. Não é mais possível fazer qualquer coisa no nível vocal ou físico que possa prejudicar a paz e a felicidade dos outros. Em vez disso, uma mente equilibrada não só se torna cheia de paz, mas ainda a atmosfera à volta igualmente se torna permeada de paz e de harmonia, e isto começará a afetar os outros, a ajudar os outros também.

Ao aprender a se manter equilibrado frente a tudo o que é experimentado internamente, desenvolvemos o desapego com relação a tudo o que encontrarmos igualmente nas situações exteriores. No entanto, este desapego não é escapismo ou indiferença aos problemas do mundo. Aqueles que praticam regularmente Vipassana se tornam mais sensíveis ao sofrimento dos outros e dão o máximo para aliviar o sofrimento da melhor maneira possível que puderem – não com qualquer agitação, mas com uma mente cheia de amor, de compaixão e de equanimidade. Eles aprendem a santa indiferença – como ficar completamente comprometido, completamente envolvido ao auxiliar os outros, enquanto ao mesmo tempo mantém o equilíbrio da mente. Desta maneira, permanecem em paz e felizes, enquanto trabalham pela paz e pela felicidade dos outros.

Foi isto o que o Buda ensinou: uma arte de viver. Ele jamais estabeleceu ou ensinou qualquer religião, nenhum “ismo.” Jamais instruiu aqueles que o procuravam a praticar quaisquer ritos ou rituais, quaisquer formalidades vazias. Em vez disso, os ensinou a observar a natureza tal qual é, ao observarem a realidade interior. Por ignorância, continuamos a reagir de maneiras que prejudicam a nós mesmos e os outros. Mas, quando surge a sabedoria – a sabedoria de observar a realidade tal qual é – este hábito de reagir definha. Quando paramos de reagir cegamente, então, somos capazes de agir verdadeiramente – ação proveniente de uma mente equilibrada, uma mente que enxerga e que compreende a verdade. Tal ação pode ser somente positiva, criativa, útil a nós mesmos e aos outros.

O que é necessário, então, é “conhecer-se a si próprio” – conselho que todo sábio tem dado. Devemos nos conhecer a nós mesmos, não apenas intelectualmente no campo das ideias e das teorias, e não apenas emocionalmente ou devocionalmente, simplesmente aceitando cegamente o que tivermos ouvido ou lido. Tal conhecimento não é o suficiente. Melhor, devemos conhecer a realidade pela experiência. Devemos experimentar diretamente a realidade deste fenômeno físico-mental. Só isto nos auxiliará a nos livrarmos do sofrimento.

Esta experiência direta de nossa própria realidade interior, esta técnica de auto-observação, é o que chamamos meditação Vipassana. No idioma da Índia no tempo do Buda, passana significava ver de modo comum, com nossos próprios olhos abertos. Mas Vipassana é observar as coisas como efetivamente são, não apenas como parecem ser. A verdade aparente tem de ser penetrada, até alcançarmos a verdade suprema de toda estrutura psico-física. Quando tivermos experimentado esta verdade, aprenderemos a parar de reagir cegamente, a parar de gerar negatividades – e naturalmente as velhas negatividades serão gradualmente erradicadas. Tornamo-nos libertos do sofrimento e experimentaremos a verdadeira felicidade.

Existem três passos para o treinamento dado em um curso de meditação. Primeiro, devemos nos abster de qualquer ação física ou vocal que perturbe a paz e a harmonia dos outros. Não podemos trabalhar para nos libertar das impurezas da mente, enquanto, ao mesmo tempo, continuamos a praticar ações de corpo e de mente que somente as multipliquem. Consequentemente, um código de moralidade é o primeiro passo essencial da prática. Comprometemo-nos de não matar, não roubar, não praticar conduta sexual inapropriada, não mentir e não usar intoxicantes. Ao nos abstermos de tais ações, permitimos a mente se acalmar suficientemente bem a fim de seguir adiante.

O próximo passo é o de desenvolver algum domínio sobre esta mente selvagem, ao treiná-la a permanecer focada em um único objeto, a respiração. Tentamos manter nossa atenção na respiração pelo tempo mais longo possível. Este não é um exercício respiratório. Não regulamos a respiração. Em vez disso, observamos a respiração natural tal qual é. Tal qual entra, tal qual sai. Dessa maneira, acalmamos a mente a ponto de não mais ser dominada pelas intensas negatividades. Ao mesmo tempo, estamos concentrando a mente, tornando-a afiada e penetrante, capaz para o trabalho de insight.

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Estes primeiros dois passos, viver uma vida de moralidade e controlar a mente, são extremamente necessários e benéficos em si, mas nos levarão à supressão das negatividades apenas se dermos o terceiro passo: purificar a mente das impurezas pelo desenvolvimento do insight em nossa própria natureza. Isto é Vipassana: experimentar nossa própria realidade pela observação sistemática e desapaixonada dentro de nós mesmos com relação à eterna mudança do fenômeno mente-matéria que se manifesta como sensações. Este é o auge do ensinamento do Buda: autopurificação pela auto-observação.

Pode ser praticada por um e por todos. Todos enfrentam o problema do sofrimento. É uma doença universal que requer um remédio universal e não um remédio sectário. Quando sofremos com a raiva, não é raiva budista, raiva hinduísta ou raiva cristã. Raiva é raiva. Quando ficamos agitados, como resultante desta raiva, esta agitação não é cristã ou judia ou muçulmana. A doença é universal. O remédio deve ser também universal.

Vipassana é o tal remédio. Ninguém se oporá a um código de vida que respeite a paz e a harmonia dos outros. Ninguém se oporá a desenvolver o controle da mente. Ninguém se oporá a desenvolver a sabedoria intuitiva em sua própria natureza, por intermédio da qual será possível libertar a mente das negatividades. Vipassana é um caminho universal.

Observar a realidade tal qual é, observando a verdade interior – isto é conhecer-se a si próprio diretamente e experimentalmente. À medida que praticarmos, continuaremos a nos libertar do sofrimento das impurezas mentais. Da verdade grosseira, exterior, aparente até a verdade suprema da mente e da matéria. Então, transcendemos isso e experimentamos uma verdade que está além da mente e da matéria, além do tempo e do espaço, além do campo condicionado da relatividade: a verdade sobre a total libertação de todas as impurezas, todo sofrimento. Seja qual for o nome que demos a esta verdade suprema será irrelevante, é o objetivo final de todos.

Que todos vocês experimentem esta verdade suprema. Que todos se livrem do sofrimento. Que todos usufruam a verdadeira paz, a verdadeira harmonia, a verdadeira felicidade.

QUE TODOS SEJAM FELIZES

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Introdução à técnica

Vipassana é uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia. Há muito tempo perdida para a humanidade, foi redescoberta por Gótama, o Buda, há mais de 2.500 anos. A palavra  Vipassana  significa ver as coisas como realmente são. É o processo de autopurificação pela auto-observação. Começamos observando a respiração natural para concentrar a mente. Com uma consciência afiada, prosseguimos para observar a natureza mutante do corpo e da mente a fim de experimentar as verdades universais da impermanência, do sofrimento e da inexistência de ego. Esta realização da verdade pela experiência direta é o processo de purificação. Todo o caminho (Dhamma) é um remédio universal para problemas universais e nada tem a ver com qualquer religião organizada ou sectarismo. Por esta razão, pode ser livremente praticado por todos, a qualquer momento, em qualquer lugar, sem qualquer conflito em função de raça, comunidade ou religião e provará ser igualmente benéfico para um e para todos.

O que não é Vipassana:

  • Não é um rito ou um ritual baseado em fé cega.
  • Não é entretenimento intelectual nem filosófico.
  • Não é uma cura de repouso, um feriado ou uma oportunidade para socialização.
  • Não é uma fuga das provações e das tribulações do cotidiano.

O que é Vipassana:

  • É uma técnica que erradicará o sofrimento.
  • É um método de purificação da mente que nos permitirá enfrentar as tensões e os problemas da vida de uma maneira calma e equilibrada.
  • É uma arte de viver que podemos usar para dar uma contribuição positiva para a sociedade.

A meditação Vipassana visa aos objetivos espirituais mais elevados de libertação total e de iluminação completa. Seu propósito não é apenas o de curar a doença física. No entanto, como um subproduto da purificação da mente, muitas doenças psicossomáticas são erradicadas. De fato, Vipassana elimina as três causas de toda infelicidade: desejo, aversão e ignorância. Com a prática continuada, a meditação libera as tensões desenvolvidas no cotidiano, desatando os nós amarrados pelo antigo hábito de reagir de uma maneira desequilibrada com relações a situações agradáveis e desagradáveis.

Embora Vipassana tenha sido desenvolvida como uma técnica pelo Buda, sua prática não está limitada a budistas. Não há absolutamente qualquer questão de conversão. A técnica trabalha com a base simples de que todos os seres humanos compartilham os mesmos problemas e de que uma técnica que possa erradicar tais problemas terá aplicação universal. As pessoas de muitas denominações religiosas experimentaram os benefícios da meditação Vipassana e não encontraram qualquer conflito com sua profissão de fé.

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Meditação a autodisciplina

O processo de autopurificação pela introspecção certamente jamais é fácil – os alunos têm de trabalhar muito arduamente para tal. Pelos seus próprios esforços, os alunos alcançam suas próprias realizações. Ninguém mais pode fazer isso por eles. Por conseguinte, a meditação será adequada apenas àqueles que estejam dispostos a trabalhar seriamente e a observar a disciplina, que está presente para o benefício e para a proteção dos meditadores e é parte integrante da prática da meditação.

Dez dias são efetivamente um curto período para penetrar os níveis mais profundos da mente inconsciente e aprender como erradicar os complexos que lá jazem. A continuidade da prática em isolamento é o segredo do sucesso desta técnica. As regras e os regulamentos foram desenvolvidos mantendo este aspecto prático em mente. Não são, em primeiro lugar, para o benefício do professor ou do gerente do curso. Tampouco representam expressões negativas da tradição, da ortodoxia e da fé cega em algumas religiões organizadas. Melhor, estão baseadas na experiência prática de milhares de meditadores ao longo dos anos e são tão científicas quanto racionais. Seguir as regras cria uma atmosfera muito apropriada que conduz à meditação. Quebrá-las a poluirá.

 

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Um aluno terá de permanecer pelo período todo do curso. As outras regras igualmente devem ser atentamente lidas e observadas. Somente aqueles que se sentem honesta e escrupulosamente capazes de seguir a disciplina devem se candidatar para admissão. Aqueles que não estiverem preparados para fazer um esforço determinado perderão seu tempo e, além disso, perturbarão os outros que desejarem trabalhar seriamente. Um aluno aplicado deve também compreender que seria tanto desvantajoso quanto desaconselhável partir sem concluir o curso, por achar a disciplina muito difícil. Da mesma maneira, seria extremamente desagradável se, apesar dos reiterados avisos, um aluno que não siga as regras, seja solicitado a ir embora.

Pessoas com sérios distúrbios mentais

Pessoas com sérios distúrbios mentais têm vindo ocasionalmente aos cursos de Vipassana com a expectativa irreal de que a técnica curará ou aliviará seus problemas mentais. Relacionamentos interpessoais instáveis e histórico de vários tratamentos podem ser fatores adicionais que podem tornar difícil para tais pessoas se beneficiar de, ou até mesmo concluir um curso de 10 dias. Nossa capacidade enquanto organização voluntária não profissional torna impossível cuidar apropriadamente de pessoas com estes antecedentes. Embora a meditação Vipassana seja benéfica para a maioria das pessoas, não é substituta do tratamento médico ou psiquiátrico e não a recomendamos para pessoas com sérios distúrbios psiquiátricos.

O Código de Disciplina

O fundamento da prática é sīla — conduta moral Sīla oferece uma base para o desenvolvimento de samādhi — concentração da mente e a purificação da mente alcançada através paññā — da sabedoria da visão interior.

Os preceitos

Todos aqueles que frequentam um curso de Vipassana devem tomar conscientemente os seguintes cinco preceitos durante todo o curso:

  1. Abster-se de matar qualquer ser;
  2. Abster-se de roubar;
  3. Abster-se de qualquer atividade sexual;
  4. Abster-se de contar mentiras;
  5. Abster-se de qualquer intoxicante.

Existem três preceitos adicionais que os antigos alunos (isto é, aqueles que tenham concluído um curso com S. N. Goenka ou um de seus professores assistentes) devem seguir durante o curso:

  1. Abster-se de comer após o meio dia;
  2. Abster-se de qualquer entretenimento sensorial e de adereços;
  3. Abster-se de dormir em camas elevadas e luxuosas.

Os alunos antigos observarão o sexto preceito ao beberem chá sem leite ou suco de frutas às 17h00, enquanto os alunos novos podem beber chá com leite e comer frutas. O professor pode liberar um aluno antigo de observar este preceito por questões de saúde. O sétimo e o oitavo preceitos serão observados por todos.

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Aceitação do professor e da técnica

Os alunos devem estar dispostos a aceitar, totalmente, e durante todo o curso, as orientações e instruções dadas pelo professor, o que significa respeitar as regras de disciplina e meditar exatamente como ele instrui, sem omitir parte alguma dessas instruções, nem acrescentar-lhes nada. A obediência deverá ser baseada no discernimento e na compreensão, não na submissão cega, porque o aluno só poderá trabalhar com empenho e precisão se tiver confiança. Tal confiança, no professor e na técnica, é essencial para o êxito da meditação.

Outras técnicas, rituais e formas de adoração

Durante o curso, é absolutamente essencial que quaisquer formas de oração, adoração ou cerimônia religiosa –– jejum, queima de incenso, manipulação de contas de malas, recitação de mantras, cantar e dançar, etc. –– sejam suspensas. Todas as outras técnicas de meditação e de cura ou práticas espirituais devem ser igualmente suspensas. Isto não é para condenar qualquer outra técnica ou prática, mas para dar uma chance justa à tecnica de Vipassana em sua pureza.

Os alunos são fortemente aconselhados sobre o fato de que se, deliberadamente, misturarem outras técnicas de meditação com Vipassana, isso poderá impedir ou até prejudicar seu progresso. Apesar dos avisos reiterados do professor, têm ocorrido casos no passado onde os alunos misturaram intencionalmente esta técnica com um ritual ou com outra prática e prestaram a si próprios grande desserviço. Quaisquer dúvidas ou confusões que possam surgir devem sempre ser esclarecidas por intermédio de uma entrevista com o professor.

Entrevistas com o professor

O professor está disponível para se encontrar com os alunos privadamente entre as 12h00 e as 13h00. Perguntas podem igualmente ser formuladas em público entre 21h00 e 21h30, na sala de meditação. Os horários de entrevistas e de perguntas são para esclarecer a técnica e para responder a perguntas que surjam em razão das palestras da noite.

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Nobre silêncio

Todos os alunos devem observar o nobre silêncio desde o início do curso até a manhã do último dia completo do curso. Nobre silêncio significa silêncio de corpo, fala e mente. Qualquer forma de comunicação com o colega aluno, seja por gestos, seja por sinais, seja por escrito, etc, está proibida.

Os alunos podem, contudo, falar com o professor sempre que for necessário e poderaõ procurar o gerente se houver algum problema relacionado à comida, à acomodação, à saúde, etc. Porém, mesmo tais contatos devem ser mantidos ao mínimo necessário. Os alunos devem cultivar o sentimento de que estão trabalhando em isolamento.

Segregação entre homens e mulheres

Segregação completa entre homens e mulheres deve ser mantida. Casais, unidos em matrimônio ou não, não devem se contatar de maneira alguma durante o curso. O mesmo se aplica a amigos, membros da mesma família, etc.

Contato físico

É importante que durante todo o curso não haja qualquer contato físico entre pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto.

Ioga e exercícios físicos

Embora a ioga física e outros exercícios sejam compatíveis com Vipassana, devem ser suspensos durante o curso porque instalações isoladas apropriadas não estão disponíveis no local do curso. Corrida também não é permitida. Os alunos podem se exercitar durante os períodos de descanso caminhando pelas áreas designadas.

Objetos religiosos, rosários, cristais, talismãs, etc.

Nenhum destes itens deve ser trazido para o local do curso. Se for trazido inadvertidamente, deverá ser guardado pelo gerente ao longo de toda duração do curso.

Intoxicantes e drogas

Nenhuma droga, álcool ou intoxicante deve ser trazido para o local do curso. Isto também se aplica a tranquilizantes, soníferos e outros sedativos. Aqueles que estejam ingerindo remédios ou drogas prescritos por médico devem notificar o professor.

Tabaco

Para a saúde e o conforto de todos os alunos, fumar, mascar tabaco e aspirar rapé não são permitidos durante o curso.

Comida

Não é possível satisfazer as preferências e as necessidades por comida especial de todos os meditadores. Os alunos são, por conseguinte, gentilmente solicitados a aceitar as refeições vegetarianas simples que são oferecidas. A gerência do curso se empenha em preparar um cardápio equilibrado, saudável apropriado para a meditação. Se algum aluno tiver recebido alguma prescrição a respeito de dieta especial em razão de problemas de saúde, deve informar o gerente no momento de sua inscrição. Não é permitido jejuar.

Roupas

A roupa deve ser simples, modesta e confortável. Roupas colantes, transparentes, reveladoras ou similares (tais como shorts, saias curtas, colants e leggings, tops sem mangas ou curtos) não devem ser vestidos. Banhos de sol e nudez parcial não são permitidos. Isto é importante a fim de minimizar a distração dos outros.

Lavar roupa e banho

Não há máquinas de lavar nem de secar roupas disponíveis. Portanto, os alunos devem trazer roupas em número suficiente. Pequenas peças podem ser lavadas à mão. Tomar banho e e lavar roupa são permitidos somente nos períodos de intervalo e não durante os horários de meditação.

Contatos externos

Os alunos devem permanecer no interior das fronteiras do curso durante todo o período do curso. Devem partir apenas com o consentimento específico do professor. Nenhuma comunicação externa é permitida, antes do término do curso. Isto inclui cartas, chamadas telefônicas e visitas. Telefones celulares, ipads e outros equipamentos eletrônicos devem ser deixados com a gerência até o término do curso. Em caso de emergência, um amigo ou um parente poderá contatar o gerente.

Música, leitura e escrita

É proibido tocar qualquer instrumento musical, escutar rádio, etc. Nenhum material de leitura ou de escrita deve ser trazido para o curso. Os alunos não devem se distrair fazendo anotações. A restrição à leitura e à escrita é para enfatizar a natureza eminentemente prática desta meditação.

Equipamentos de gravação e câmeras

Não devem ser usados exceto com a expressa autorização do professor

Financiamento do curso

Consoante a tradição da pura Vipassana, os cursos funcionam unicamente com base em doações. As doações são aceitas somente daqueles que tenham concluído, pelo menos, um curso de 10 dias com S. N. Goenka ou um de seus professores assistentes. Alguém que esteja frequentando o curso pela primeira vez pode oferecer uma doação no último dia do curso ou a qualquer momento após.

Dessa forma, os cursos são mantidos por aqueles que tenham se dado conta dos benefícios da prática. Se desejarmos compartilhar tais benefícios com os outros, doaremos segundo nossos próprios meios e volição. Tais doações são a única fonte de financiamento dos cursos nesta tradição em todo o mundo. Não há qualquer fundação ou pessoa física abastadas que os patrocine. Nem professores nem organizadores recebem qualquer tipo de pagamento por seus serviços. Assim, a disseminação de Vipassana é realizada com a pureza de propósito, livre de qualquer fim comercial.

Seja grande, seja pequena, a doação deve ser feita com o desejo de ajudar os outros. O curso que frequentei foi pago pela generosidade de alunos do passado. ‘Agora, deixe-me doar algo com o objetivo de ajudar nos custos de um curso no futuro, a fim de permitir que outros igualmente possam se beneficiar com esta técnica.’

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Resumo

Para esclarecer o espírito por detrás da disciplina e das regras, segue um sumário abaixo:

Certifique-se de que suas ações não perturbem seja quem for. Não preste atenção às distrações geradas por outros.

É possível que um aluno seja incapaz de compreender as razões práticas para uma ou para diversas das regras citadas acima. Em lugar de permitir que a negatividade e a dúvida se desenvolvam, será melhor buscar esclarecimento imediato junto ao professor.

É somente adotando uma atitude disciplinada e fazendo o máximo esforço que o aluno poderá compreender completamente a prática para dela se beneficiar. A ênfase durante o curso é no trabalho. Uma regra de ouro é a de meditar como se estivéssemos sozinhos, com nossa mente voltada para dentro, ignorando quaisquer inconveniências e distrações que pudermos encontrar.

Por fim, os alunos devem se dar conta de que seu progresso em Vipassana depende somente de suas próprias boas qualidades, de seu desenvolvimento pessoal e de cinco fatores: esforços fervorosos, confiança, sinceridade, saúde e sabedoria.

Que a informação acima o ajude a obter o máximo benefício de seu curso de meditação. Estamos felizes por ter a oportunidade de servir e lhe desejamos paz e harmonia em sua experiência com Vipassana.

HORÁRIO DO CURSO

O horário seguinte para o curso foi elaborado para manter a continuidade da prática. Para alcançar os melhores resultados, os alunos são aconselhados a segui-lo tão estritamente quanto possível.

4:00 Sino para despertar
4:30-6:30 Meditação na sala de meditação ou em seu quarto
6:30-8:00 Café da manhã
8:00-9:00 Sessão de meditação em grupo na sala de meditação
9:00-11:00 Meditação na sala de meditação ou em seu quarto segundo instruções do professor
11:00-12:00 noon Intervalo almoço
12 noon-13:00 Descanso e entrevistas com o professor
13:00-14:30 Meditação na sala de meditação ou em seu quarto
14:30-15:30 Sessão de meditação em grupo na sala de meditação
15:30-17:00 Meditação na sala de meditação ou em seu quarto segundo instruções do professor
17:00-18:00 Pausa para o chá
18:00-19:00 Sessão de meditação em grupo na sala de meditação
19:00-20:15 Palestra do professor na sala de meditação
20:15-21:00 Sessão de meditação em grupo na sala de meditação
21:00-21:30 Horário para perguntas na sala de meditação
21:30 Hora de se recolher para seu quarto – Apagam-se as luzes

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Perguntas e respostas sobre a técnica de Vipassana

Por que o curso tem duração de dez dias?

Na verdade, o curso de dez dias é o mínimo. Oferece uma introdução e uma fundação essenciais à técnica. Desenvolver-se na prática é um trabalho para o resto da vida. A experiência de gerações mostrou que, se Vipassana for ensinada em períodos de menos de dez dias, o aluno não obtém compreensão experimental suficiente da técnica. Tradicionalmente, Vipassana era ensinada em retiros que duravam sete semanas. Com o romper do Século 20, os professores desta tradição começaram a experimentar períodos mais curtos a fim de se adequarem ao passo de vida mais ligeiro. Tentaram trinta dias, duas semanas, dez dias, até sete dias – e descobriram que menos de dez dias não é tempo suficiente para a mente se estabelecer e trabalhar profundamente com o fenômeno mente-matéria.

Quantas horas por dia meditarei?

O dia começa às 4h00, com o sino de despertar e vai até as 21h00. Existem cerca de dez horas de meditação durante o dia, intercaladas por intervalos regulares e por períodos de descanso. Toda noite, às 19h00, há uma palestra em vídeo proferida pelo professor S. N Goenka, que oferece um contexto para os meditadores compreenderem sua experiência do dia. Este horário provou ser eficaz e benéfico para centenas de milhares de pessoas durante décadas.

Qual o idioma usado no curso?

O ensinamento é dado por intermédio de gravações de S. N. Goenka, falando em inglês ou em hindi, juntamente com a tradução para um idioma local. Tradução das fitas existe na maioria dos idiomas do mundo todo, inclusive em inglês. Se o professor que conduz o curso não falar o idioma fluentemente, tradutores estarão presentes para ajudar. O idioma geralmente não é obstáculo para alguém que deseja frequentar um curso.

Quanto custa o curso?

Cada aluno que frequenta um curso de Vipassana recebe esta dádiva de um aluno antigo anterior. Não há qualquer taxa nem pelo ensinamento nem pelo alojamento nem pela alimentação. Todos os cursos de Vipassana em todo o mundo são organizados com base estrita em doações voluntárias. Ao fim de seu curso, se tiver se beneficiado da experiência, será bem-vindo a doar para a realização do próximo curso, em consonância com sua volição e com seus meios.

Quanto recebem os professores para conduzir os cursos?

Os professores não recebem qualquer pagamento, doação ou outro benefício material. Espera-se que disponham seus próprios meios particulares de sustento. Esta regra significa que alguns deles talvez tenham menos tempo para ensinar, mas isto protege os alunos da exploração e salvaguarda contra o comercialismo. Nesta tradição, os professores doam Vipassana na forma pura, como um serviço prestado aos outros. Tudo o que recebem é a satisfação de ver a felicidade das pessoas ao fim dos dez dias.

Não consigo me sentar de pernas cruzadas. Posso meditar?

Certamente. Cadeiras são providenciadas para aqueles que não conseguem se sentar confortavelmente no chão por causa da idade ou de algum problema físico.

Sigo dieta especial. Posso trazer minha própria comida?

Se seu médico lhe prescreveu dieta especial, por favor, avise-nos e veremos se será possível lhe oferecer aquilo de que necessita. Se a dieta for muito específica ou se interferirá na sua meditação, provavelmente teremos de lhe pedir para esperar até poder a ser mais flexível. Sentimos muito, mas os alunos devem escolher algo da comida que lhes for oferecida, em vez de trazer comida para si próprios. A maioria das pessoas considera a escolha ampla e aproveitam a dieta vegetariana simples.

As mulheres grávidas podem frequentar o curso? Existe algum preparativo especial ou instruções específicas para elas?

Mulheres grávidas certamente frequentam e muitas mulheres vêm especificamente durante a gestação para aproveitar a oportunidade de trabalhar profundamente e em silêncio durante este tempo especial. Solicitamos às mulheres grávidas que se certifiquem de que sua gravidez esteja estável, antes de se inscreverem. Providenciamos comida extra quando necessitam e lhes pedimos para trabalhar de uma maneira mais relaxada.

Por que um curso é conduzido em silêncio?

Todos os alunos que frequentam o curso observam o “nobre silêncio” – ou seja, silêncio de corpo, de fala e de mente. Concordam de se abster de qualquer comunicação com seus colegas meditadores. No entanto, os alunos estão livres para contatar o gerente sobre suas necessidades materiais e para falar com o instrutor. O silêncio é observado pelos primeiros nove dias completos. No décimo dia, a conversa é retomada a fim de restabelecer o padrão normal do cotidiano. A continuidade da prática é o segredo do sucesso neste curso. O silêncio é componente essencial na manutenção desta continuidade.

Como posso ter certeza de que sou capaz de meditar?

Para uma pessoa em condições razoáveis de saúde física e mental, que esteja interessada e disposta a fazer um esforço sincero, a meditação (incluindo o “nobre silêncio”) não é difícil. Se você for capaz de seguir as instruções pacientemente e diligentemente, poderá ficar certo dos resultados tangíveis. Embora possa parecer assustador, o horário diário de trabalho nem é muito severo nem muito relaxado. Pelo contrário, a presença de outros alunos praticando conscientemente em uma atmosfera pacífica e apropriada oferece tremendo apoio aos nossos próprios esforços.

Existe alguém que não deva participar de um curso?

Obviamente, alguém que estiver fisicamente debilitado demais para seguir o horário não será capaz de se beneficiar de um curso. O mesmo é verdade no caso de alguém que sofra de problemas psiquiátricos ou que esteja passando por transtorno emocional. Através de um processo de perguntas e respostas, seremos capazes de ajudá-lo a decidir claramente, de antemão, se está em situação de se beneficiar completamente do curso. Em alguns casos, solicitamos aos candidatos obter a aprovação de seu médico, antes de poderem ser aceitos.

Vipassana pode curar doenças mentais ou físicas?

Muitas doenças são causadas pela nossa agitação interior. Se a agitação for removida, a doença pode ser abrandada ou até desaparecer. Mas aprender Vipassana com o objetivo de curar uma doença é um equívoco que jamais funciona. As pessoas que tentam fazer isso perdem seu tempo, porque estão se concentrando no objetivo errado. Podem até se fazer mal. Podem nem compreender a meditação apropriadamente nem terem sucesso em se livrar da doença.

E sobre depressão? Vipassana cura isso?

Novamente, o propósito de Vipassana não é o de curar doenças. Alguém que realmente pratique Vipassana aprende a ser feliz e a ser equilibrado em quaisquer circunstâncias. Mas uma pessoa com histórico severo de depressão pode não ser capaz de aplicar a técnica adequadamente e pode não obter os resultados desejados. A melhor coisa para tal pessoa é trabalhar com um profissional da saúde. Os professores de Vipassana são especialistas em meditação, não são psicoterapeutas.

Pode Vipassana tornar as pessoas mentalmente desequilibradas?

Não. Vipassana ensina a ficar consciente e equânime, isto é, apesar de todos os altos e baixos da vida. Mas se alguém vem ao curso ocultando sérios problemas emocionais, desequilibrado, esta pessoa pode estar incapaz de compreender a técnica ou de aplicá-la apropriadamente, a fim de alcançar os resultados desejados. É por isso que é importante nos deixar conhecer seu histórico, com o objetivo de avaliar se você poderá se beneficiar de um curso.

Tenho de ser budista para praticar Vipassana?

Pessoas de muitas religiões e de nenhuma religião acharam o curso útil e benéfico. Vipassana é uma arte de viver, um modo de vida. Enquanto essência do que o Buda ensinou, não é religião, e sim o cultivo de valores humanos que levam à uma vida boa para si próprio e boa para os outros.

Por que tenho de permanecer por todo período de 10 dias?

Vipassana é ensinada passo a passo, com um novo passo adicionado a cada dia até o fim do curso. Se sair mais cedo, não terá aprendido a técnica completa e não terá dado à técnica uma chance de trabalhar para você próprio. Igualmente, ao meditar intensamente, um participante do curso inicia um processo que alcança a realização com a conclusão do curso. Interromper o processo antes de seu término não é aconselhável.

É perigoso deixar um curso antes de seu término?

A questão é a de que sair mais cedo do curso é roubar no troco consigo próprio. Você não dá a si próprio uma chance de aprender a técnica completa e, portanto, não não será capaz de aplicá-la com sucesso na sua vida cotidiana. Você igualmente interrompe o progresso no meio, em vez de deixá-lo ir até o fim. Ir para casa um dia ou dois dias mais cedo, perderá todo tempo que investiu.

Que tal o décimo dia, quando a conversa é permitida e a meditação séria cessa? Posso sair, então?

O décimo dia é uma transição muito importante para voltar à vida comum. Ninguém pode ir embora neste dia.

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Quem é Jane Goodall

Quando era uma cientista novata, Jane Goodall ficou famosa pelos estudos pioneiros sobre os chimpanzés na África. Raras imagens ilustram o seu projeto na selva, as concessões que precisou fazer e o fotógrafo que ela amou.

Por Tony Gerber
Fotos de Hugo Van Lawick

As primeiras descobertas da jovem primatóloga chamaram a atenção da National Geographic. Jane Goodall não gostava de ser fotografada, mas acabou por aceitar porque era um modo de obter apoio para o seu trabalho.

“Para quem talvez esteja ouvindo a minha história de novo, peço desculpas”, disse Jane Goodall à plateia em uma palestra em 2015. Porém, certas histórias, completou ela, “soam melhores quando ouvidas de novo”. As linhas gerais da vida de Jane são instantaneamente reconhecíveis, de tanto que foram transmitidas: Jovem inglesa estuda chimpanzés na África e revoluciona a ciência dos primatas. Como isso aconteceu? Como uma apaixonada por animais, sem formação de pesquisadora, abriu caminho nos mundos masculinos da ciência e da mídia, fez descobertas fundamentais na sua área e se tornou um rosto mundialmente famoso do movimento conservacionista? Esta é a sua história.

Jane ganhou fama graças ao filme Miss Goodall and the Wild Chimpanzees, que estreou em 1965 e foi produzido pela National Geographic. Faz anos que não o vê.  Mas agora eu mostro o documentário para ela em um laptop na casa de um amigo em Londres. A primatologista observa a si mesma com 28 anos – em abril, ela completa 84.

“Já pensou que divertido seria voltar a ter essa idade?”, observa ela, sorrindo. Jovem e cheia de ideais, Jane Goodall caminha pela floresta da Reserva de Caça Gombe Stream, na Tanzânia,com tênis de lona de cano alto, bermuda cáqui e o cabelo louro preso num rabo-de-cavalo que se tornaria a sua marca registrada. Parece estar fazendo pesquisa de campo – mas, na verdade,ela explica, estava reencenando episódios dos seus seis meses em Gombe para que o fotógrafo,Hugo van Lawick, pudesse filmá-los. Esses meses foram um período excepcional de solidão  e descoberta – um tempo antes de haver câmeras presentes. Porque, depois disso, elas sempre estiveram presentes na sua vida, até hoje.

Executivos da National Geographic tinham detalhado o que Hugo deveria filmar em Gombe. Ela recorda, com humor: “Eles nos deram uma lista: Jane no barco, Jane de binóculo, Jane olhando um mapa”. Quando Miss Goodall and the Wild Chimpanzees foi transmitido pela CBS em 22 de dezembro de 1965, um público estimado em 25 milhões de telespectadores na América do Norte viu o documentário – uma audiência colossal,inclusive para os padrões atuais

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Com binóculos nas mãos, Jane subia árvores procurando vistas melhores dos chipanzés que ela estudava. Hugo van Lawick tirou esta foto; ele e Jane se casaram um ano antes da imagem aparecer na National Geographic acompanhando um artigo escrito pela cientista intitulado “Novas descobertas sobre os chimpanzés africanos”.

Essa exposição trouxe reconhecimento internacional a Jane e deu a partida em uma carreira lendária em primatologia. A National Geographic encontrou em Jane uma pesquisadora fotogênica e uma contadora de história com a figura e a ocupação ideais para um filme: a mulher branca atraente fazendo trabalho científico na mata africana. Era ainda mais emocionante porque,naquela época, se costumava dissuadir as mulheres de seguir carreira científica. Desde então,Jane concluiu um doutorado na Universidade de Cambridge, escreveu dezenas de livros, orientou novas gerações de cientistas, promoveu a conservação no mundo em desenvolvimento e criou vários santuários para chimpanzés. Hoje, o programa Roots & Shoots, do Instituto Goodall, atua em quase 100 países, treinando jovens para serem líderes conservacionistas. E Jane ainda viaja cerca de 300 dias por ano para orientar governos,visitar escolas e fazer palestras.

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Em 1965, quando Hugo tirou esta foto, Jane tinha desenvolvido relacionamentos próximos com muitos dos chipanzés. Mas em outubro de 1963, quando o macaco chamado David Greybeard pegou a mão de Jane pela primeira vez, foi um gesto impressionante de comunicação que Jane mais tarde descreveu como “o mais significativo da minha vida.”

 

 

Jane foi tema de mais de 40 filmes e de inúmeras apresentações na televisão. Agora é a protagonista de Jane: a Mãe dos Chimpanzés, um documentário da National Geographic sobre a sua vida e obra, com vídeos inéditos compondo um perfil revelador da mulher que se tornou uma celebridade pela sua devoção aos chimpanzés.

Em 1962, quando esteve em Gombe para documentaras descobertas de Jane, Hugo fez milhares de fotos e mais de 65 horas de vídeo em filme de 16 milímetros. Uma fração desse trabalho foi usada no especial para a televisão de 1965 e na revista National Geographic. O que os editores não usaram ficou guardado em latas e caixas de filme e acabou esquecido. Até que, em 2015, o material foi encontrado em um depósito subterrâneo na zona rural da Pensilvânia. Daqueles preciosos rolos de filme emanava a promessa de algo raro: uma nova perspectiva sobre Jane Goodall. Em vídeo, muito frequentemente no fim da filmagem, ela desmancha a sua fachada séria e olha para a lente – para Hugo, o seu diretor. Nesses breves momentos, podemos ver as faíscas do amor pelo homem atrás da câmera.

Hugo — que aqui está fumando um cigarro enquanto se pendura em uma árvore Gombe — era um perfeccionista, para frustração de Jane. Ele não fotografava nem mesmo atitudes impressionantes dos macacos se a luz e a exposição não estivessem boas. Sempre inovador, Hugo espalhou um pouco de areia da praia no chão da estação de alimentação de Gombe para que a luz fosse refletida nos rostos dos chipanzés. Jane eventualmente adquiriu uma câmera Super 8 para poder filmar os macacos a qualquer momento, sem se importar com iluminação.

Esse material valioso oferece um vislumbre íntimo de Jane em um período decisivo: quando uma jovem que só conhecia a África dos livros de Tarzan e Dr. Doolittle foi jogada na sua fantasia e quando as descobertas de uma cientista caloura refutaram crenças arraigadas sobre os parentes mais próximos dos seres humanos.

Em Gombe, Jane enfrentou todo tipo de ameaça natural: malária, parasitas, serpentes, tempestades.Mas foi para lidar com o mundo lá fora que ela precisou de grande astúcia estratégica e delicadeza diplomática. No começo da carreira, confrontou uma classe científica majoritariamente masculina que não a levava a sério, executivos de meios de comunicação cujo apoio exigia que ela se submetesse a um roteiro e à glamourização,homens que se diziam os seus parceiros ou patronos mas também almejavam controle, concessões ou um relacionamento que ela não queria.

Diante de todas essas dificuldades, a filosofia de Jane foi sempre a mesma: suportar o menosprezo,fazer concessões e sacrifícios – contanto que servisse para dar respaldo ao seu trabalho.

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Empoleirada em um corda, um macaco fêmea chamado Fifi observa Jane beber seu drink enquanto espera que ela lhe ofereça uma banana. Com o tempo, Fifi tornou-se uma matriarca dos chipanzés de Gombe e criou sete filhos. Em 2004, quando a chipanzé e seu filho mais novo desapareceram, Jane disse que era “um momento realmente triste.”

Desde a infância, na Inglaterra, Valerie JaneMorris-Goodall demonstrou imenso amor pelos animais e o desejo de trabalhar com eles na África. A família não tinha recursos para custear a universidade; por isso, ela foi estudar secretariado. Trabalhou em Oxford, e depois para uma produtora de documentários em Londres. Em meados de 1956, voltou para a sua cidade e foi ser garçonete, economizando para comprar uma passagem de navio para o Quênia.

Em Nairobi, ela solicitou uma entrevista como paleoantropólogo Louis S.B. Leakey, cujo interesse pelos grandes primatas nasceu dos seus estudos pioneiros sobre as origens humanas. Leakey contratou Jane na hora como secretária,e logo viu nela uma cientista em potencial. Providenciou para que ela fosse estudar sobre primatas, enquanto ele procurava verba para mandá-la à Tanzânia fazer pesquisa de campo.

Poucos meses depois de conhecê-la, ele disse que estava apaixonado por ela.

Depois que Jane e Hugo se casaram, o foco passou para ambos. Esta cena requereu uma segunda câmera para contar a história da colaboração do casal nas filmagens em Gombe. Eles provavelmente foram o primeiro casal de reality show na TV.

Jane descreveu em cartas que ficou “horrorizada” com a declaração de Leakey, que era um homem 30 anos mais velho que ela – e casado. Meses depois de Jane deixar bem claro que não poderia retribuir aqueles sentimentos, Leakey ainda lhe mandava cartas de amor.

Anos mais tarde, em uma grande entrevista com Virginia Morell, autora de um livro sobre a família Leakey, Jane contou: “Meu medo era pelo que a rejeição poderia significar para o meu estudo dos chimpanzés”. Leakey, no entanto, nunca misturou as coisas: não lhe negou apoio, e em meados de 1960 Jane estava montando um acampamento na Reserva de Gombe Stream, perto da margem do Lago Tanganica, com financiamento suficiente para seis meses de trabalho de campo. Como o governo não permitia que uma mulher vivesse sozinha na reserva, Vanne Morris-Goodall foi junto, como acompanhante da filha.

Desde o princípio, Jane seguiu os seus instintos nos procedimentos de pesquisa. Como ela não sabia que a prática científica era identificar os animais estudados por números, acabou por registrar as suas observações sobre os chimpanzés com nomes que ela escolheu: Fifi, Flo, Sr. McGregor, David Greybeard. Referia-se aos chimpanzés como indivíduos com traços e personalidades distintos. Por exemplo, quando uma fêmea que ela chamava de Sra. Maggs estava preparando um ninho na copa de uma árvore para passar a noite, Jane escreveu que a chimpanzé “testou os galhos exatamente como uma pessoa quando testa as molas de uma cama de hotel”.

Jane passava a maior parte do tempo localizando animais com o binóculo; aproximava-se aos poucos para que eles se acostumassem à sua presença enquanto se sentava e fazia anotações. Mas, a um mês do fim dos recursos, ela não tinha feito o tipo de descoberta que julgava digna da fé depositada por Leakey. Ela então fez três descobertas que não só deixariam Leakey orgulhoso como revolucionariam toda a ciência estabelecida.

Na primeira, ela observou um chimpanzé comendo a carcaça de um bicho pequeno, o que desmentia a crença prevalecente de que os grandes primatas não ingeriam carne. Aquele chimpanzé destacava-se pelo seu “cavanhaque” grisalho, e ela o chamou de David Greybeard (“Barba Grisalha”). Ele, em troca, abriu-lhe as portas para o mundo oculto dos chimpanzés de Gombe

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No zoológico de Brazzaville, na capital da República do Congo, um chimpanzé criado em cativeiro chamado Jou Jou estende a mão para Jane. É uma das muitas fotos que o fotógrafo da National Geographic Michael “Nick” Nichols fez de Jane durante as viagens dela para aumentar a conscientização do público de quantos macacos sofrem engaiolados.

Em menos de duas semanas, Jane tornou a observar David Greybeard, mas, dessa vez, o que ela viu foi um divisor de águas. Acocorado diante de um cupinzeiro, o chimpanzé pegou um talo de capim e o introduziu em um túnel. Retirou o capim cheio de cupins grudados e os devorou. Em outro momento, Jane viu-o pegar um graveto, remover as folhas e usá-lo para pescar cupins. David Greybeard tinha usado e fabricado ferramentas – dois comportamentos até então considerados exclusivos dos seres humanos.

Quando Jane passou uma mensagem a Leakey com essa notícia, ele respondeu:

TEMOS QUE REDEFINIR FERRAMENTA

REDEFINIR HOMEM

OU ACEITAR CHIMPANZÉS COMO SERES HUMANOS.

Tempos depois dessas poderosas descobertas, a National Geographic concedeu bolsa para Jane Goodall continuar o seu trabalho em Gombe.

Quando Jane começou a redigir e publicar o seu estudo de campo, foi recebida com ceticismo pela comunidade científica. Afinal de contas, ela não tinha formação acadêmica – apenas um diploma de secretária declarando que ela sabia datilografar sem olhar para o teclado.

No segundo trimestre de 1962, Jane fez uma apresentação no simpósio sobre primatas da Sociedade Zoológica de Londres, e causou boa impressão em muitos na plateia, inclusive no zoólogo e escritor Desmond Morris. Mas também enfrentou zombaria. Um integrante da entidade fez uma crítica mal disfarçada ao trabalho dela, classificando-o como “relatos isolados e […] especulações” que não traziam “uma verdadeira contribuição à ciência”. Um ácido informe da Associated Press começava dizendo “Loura esguia com mais tempo para macacos que para homens contou hoje como passou 15 meses na selva estudando os hábitos dos primatas”.

Jane senta-se na base de concreto do comedouro que ela e Hugo construíram morro acima do acampamento do lago, pensando em atrair os chimpanzés para observações e filmagens. Depois que os primatas passaram a exigir bananas com mais agressividade, eles transferiram o comedouro para longe.

Um registro visual das descobertas de Jane acabaria com discussões desse tipo. Mas Jane recusou o pedido da National Geographic para enviar um fotógrafo; disse que um estranho poderia perturbar o vínculo que ela estava formando com os chimpanzés. Depois de passar meses se aproximando o suficiente dos animais, ela escreveu em uma carta: “Quero tirar minhas próprias fotos – ou fazer o melhor que poder”.

A National Geographic enviou uma câmera e vários rolos de filme para a África, com instruções de uso detalhadas. Jane deu tudo de si, mas os seus alvos peludos tendiam a ficar ocultos nas sombras, e as fotos que ela mandava não eram boas para o padrão editorial da revista. Os editores voltaram a pressionar por um fotógrafo, mas Jane se opôs: a sua irmã mais nova, Judy, tinha experiência em fotografia, e as duas eram parecidas, inclusive na voz: os chimpanzés não se incomodariam com a presença da irmã.

Louis Leakey bancou a viagem de Judy para Gombe com recursos da venda de direitos de publicação das primeiras fotos para um semanário britânico. Mas, no final, os editores também não gostaram das fotos dela. A revista queria que Jane escrevesse um artigo sobre o seu trabalho – só que a reportagem não poderia prosseguir sem boas imagens dos animais, avisou um deles. Jane compreendeu que, se não conseguisse a cobertura do seu trabalho pela revista, a sua verba da National Geographic poderia ficar em perigo.

 

 

Leakey tinha ajudado Jane a ser aceita em um programa de doutorado na Universidade de Cambridge – ela foi uma das pouquíssimas pessoas sem diploma de graduação já admitida pela instituição. Ele pediu à National Geographic que subvencionasse Jane enquanto ela redigia o seu estudo sobre Gombe e trabalhava na dissertação.

Quando a revista recusou o pedido, alegando que “essa moça […] não tem qualificações, pois não possui diploma universitário”, Leakey, furioso, enviou um memorando com uma lista das realizações da sua protegida. Os executivos da National Geographic concederam a Jane a verba solicitada, mas, em troca, ela teve de concordar em receber um fotógrafo profissional em Gombe. Por recomendação de Leakey, a revista contratou Hugo van Lawick para o serviço.

Jane mostra a foto de um chimpanzé adulto ao pequeno Flint. Antes de Hugo construir uma câmara escura em Gombe, ele precisava enviar o filme para ser revelado em Washington, DC. Tinha de aguardar semanas até ser informado sobre a qualidade das fotos.

Trabalhar em Gombe com Jane seria uma oportunidade de ouro ao holandês de 25 anos que tinha experiência em filmagem na área de história natural. Jane escreveu a uma amiga que, na verdade, estava ansiosa pela chegada dele, pois fora informada de que Hugo era “um fotógrafo de primeira classe, maravilhoso com animais”, e acrescentou: “É bom demais para ser verdade”.

Quando entrevistei Jane em 2015, ela garantiu que “Louis estava era procurando um companheiro para mim quando mandou Hugo. Ele mesmo admitiu isso”. Jane acredita que, no fim, o amor de Leakey por ela não era egoísta.

Hugo chegou a Gombe em agosto de 1962. De cara, um problema: ele fumava muito, o que Jane detestava. Fora isso, os dois combinavam bem, ambos fervorosos observadores de animais, devotados ao trabalho. Em carta a uma amiga, ela escreveu: “Somos uma família muito feliz. Hugo é uma simpatia, e nos damos muito bem”.

Enquanto documentavam o comportamento dos chimpanzés, Jane e Hugo não achavam que valia a pena filmar a pesquisadora em ação. Mas os profissionais da National Geographic estavam cada vez mais interessados em apontar a câmera para ela. “Sei que não vai esquecer de tirar algumas fotos da vida no acampamento – fazer comida, escrever relatórios à luz do lampião, tomar banho, lavar o cabelo e coisas do tipo”, escreveu o assistente de ilustração Robert Gilka em uma carta a Hugo no terceiro trimestre de 1962. “Falei em lavar o cabelo porque recebemos uma foto assim da última viagem de Jane à reserva, mas […] a exposição era tão baixa que não foi possível reproduzir.” E Gilka frisou: boas fotos de Jane lavando os cabelos num riacho “ajudariam bastante”.

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Desde os primeiros dias em Gombe, Jane ocasionalmente acampava em um ponto alto da reserva para observar os chipanzés à noite e cedo pela manhã. Esta fotografia provavelmente foi reencenado a pedido de Hugo quando ele foi contratado pela National Geographic para retratar a vida e o trabalho da cientista.

 

 

Na casa londrina onde Miss Gooodall and theWild Chimpanzees continua rodando no laptop, chegamos à cena da lavagem do cabelo. Ainda hoje, essa cena incomoda Jane. “Fiquei brava quando filmaram isso”, comenta ela. “Por quê?”, pergunto. “Não há motivo para que me vejam lavando o cabelo. Eu não conseguia entender que interesse poderia ter isso.”

O trabalho de Hugo agradou aos editores. Ele estava atendendo a todas as demandas: registrando imagens do uso de ferramentas, da construção de ninhos e das hierarquias sociais dos chimpanzés – e ainda fazendo as fotos de interesse humano com Jane que Gilka havia pedido.

As suas fotos foram publicadas junto com as palavras de Jane em uma reportagem especial da revista de agosto de 1963: “Minha Vida entre Chimpanzés Selvagens – Uma corajosa cientista britânica vive entre grandes primatas em Tanganica e descobre detalhes até então desconhecidos do comportamento desses animais”.

A publicação foi um tremendo sucesso. O presidente da National Geographic Society, Melville Grosvenor, pagou bônus a Jane e Hugo e elogiou a reportagem como “magnífica”. Na primeira página, um texto apresentando Jane captava a dualidade da imagem pública que estava sendo criada para ela. Em um parágrafo, Jane era descrita como “uma zoóloga científica moderna” – e, no seguinte, era “uma encantadora jovem inglesa”.

Flint foi a primeira cria nascida em Gombe depois da chegada de Jane. Com ele, Jane teve a oportunidade de estudar os chimpanzés e de ter contato físico, algo que agora não é mais apropriado com espécimes selvagens.

Enquanto Jane e Hugo expandiam a estação de pesquisa em Gombe, desenvolviam ideias para novos filmes, mas a National Geographic Society queria manter os holofotes em Jane nos filmes feitos para a televisão e para o circuito de palestras. Os pedidos eram cada vez mais específicos, como nesta carta para Hugo, escrita por Joanne Hess, do setor de palestras: “Será muito útil que haja várias fotos de Jane, para as quais ela terá de posar, que a mostrem olhando pelo binóculo, rindo dos chimpanzés, fitando os animais nas árvores, fazendo anotações no seu caderno etc.”, escreveu Hess. “Ou seja, você deve tirar uns 60 metros de fotos de Jane, em close-up, “fingindo” fazer essas coisas, para podermos inserir imagens dela no filme.”

As pressões para posar irritaram Jane, mas ela se conduziu diplomaticamente. Em uma carta a Melvin Payne, cuja comissão supervisionava a verba da sua pesquisa, Jane escreveu: “Sem dúvida, entendo que é necessário construir uma história em torno de ‘Jane Goodall’, e temos cooperado com Joanne o melhor possível”.

Mas, quando Hess foi a Gombe para acompanhar as filmagens, Jane se permitiu um ato privado de rebelião. “Já coletamos uma porção de aranhas e centopeias de aparência assustadora, e vamos largá-las ‘por acaso’ na barraca dela, para ver se abreviamos a visita”, escreveu Jane à mãe.

Quando entrevistei Jane durante uma visita a Gombe em 2015, ela encarou mais filosoficamente o seu tratamento como celebridade:

JANE GOODALL: Lá estava aquela jovem charmosa, no meio da selva com animais possivelmente perigosos. As pessoas gostam de romantizar, e me viam como se eu fosse aquele mito que tinham criado na cabeça delas. E a revista também ajudou a criar esse mito.

TONY GERBER: Mas muita gente resistiria, e argumentaria “Essa aí não sou eu”.

JANE: Não havia outro modo de me retratar. Não era falso. Mas acontece que as pessoas pegam os fatos e criam histórias com base neles.

GERBER: Em algum momento você apoiou? Floreou as situações? Embelezou as coisas?

JANE: Bem, em certo momento, percebi que, se era para as pessoas pensarem daquele modo, pelo menos, assim, elas me escutariam, o que é verdade. E isso ajudaria a conservar os chimpanzés e a fazer tudo o mais que eu precisava fazer.

No livro My Friends, the Wild Chimpanzees, Jane relembra o seu primeiro dia em Gombe, quando ela montou as barracas que seriam a sua habitação. “Eu tinha consciência sobre as muitas dificuldades que enfrentaria”, escreveu. “E sabia que aquele era um dos dias mais felizes da minha vida.”

No fim de 1963, Jane confidenciou a amigas que ela e Hugo estavam “muito apaixonados”. Durante os feriados do Natal, na casa da sua família em Bornemouth, no litoral sudeste da Inglaterra, ela recebeu um telegrama: “QUER CASAR COMIGO PONTO HUGO”. Ela disse sim. Marcaram a data para 28 de maio, um mês depois do evento que seria determinante para Jane: a sua primeira grande palestra pública nos Estados Unidos.

Falar no palco da famosa sala de concerto DAR Constitution Hall, em Washington, mexeu um pouco com os nervos de Jane, mas os membros da comissão de palestras da National Geographic pareceram mais ansiosos. Ela deveria falar tendo ao fundo um filme com imagens feitas por Hugo. Aproximou-se o 28 de fevereiro, e a comissão pediu um rascunho do discurso. Jane não tinha.

Para assegurar o sucesso da palestra, Joanne Hess e a sua equipe pediram a Jane que fosse com eles até a sala de edição para treinar a sua fala enquanto o filme era exibido. Quando a entrevistei em Gombe em 2015, ela recordou a cena: “Era natural que eles quisessem ouvir o que iria ser dito”, contou. “Mas eu tenho muita dificuldade para treinar o que vou falar; as palavras só saem direto para a plateia. Na época, eu não sabia disso. Só sabia que, com três pessoas me ouvindo naquela sala de edição, não era uma palestra! Eles pareciam estar cochichando uns com os outros ‘Não seria melhor cancelar? Vai ser um desastre! Podemos mesmo associar a National Geographic a essa mocinha? Parece que ela não sabe o que vai dizer’. Eu sabia muito bem o que iria dizer, mas não faria uma palestra inteira para três pessoas numa sala de edição.”

Na palestra e exibição do filme na sala DAR Constitution Hall, Jane falou sobre as suas descobertas científicas, que descreveu como “resultados muito além do que eu jamais sonhei”. Evocou cenas da beleza e tranquilidade de Gombe. E, como faria por toda a sua carreira, ela descreveu chimpanzés de acordo com as suas personalidades e com os nomes que ela tinha dado a cada um. Disse que Fifi era “ágil e acrobática” e que o irmão mais velho de Fifi, Figan, era um adolescente que “se acha um tanto superior”. Jane batizou um bebê que estava “começando a se firmar nos pés” como Gilka, uma travessura com o nome do editor da National Geographic.

E, ao explicar a necessidade de proteger os chimpanzés e impedir que fossem baleados ou mandados para o circo, Jane falou sobre o confiante primata que lhe abrira a porta para algumas das suas descobertas mais importantes. “David Greybeard […] pôs toda a sua confiança no homem. Devemos desapontá-lo?”, argumentou. “Cabe a nós garantir que pelo menos alguns desses seres maravilhosos, quase humanos, continuem a viver em paz no seu hábitat.”

Jane mostra um chimpanzé de brinquedo à fêmea juvenil Fifi. Para quebrar a rotina ou para observação científica, Jane mostrava aos animais coisas que eles nunca veriam na natureza, de espelhos de barbear a edições da National Geographic.

A palestra foi um triunfo, um marco na sua ascensão como figura pública – uma posição que ela estava aprendendo a administrar em função do que achava importante. O evento chamou a atenção de um executivo da National Geographic que estava montando um departamento de especiais para a televisão. Parte das filmagens de Gombe foi usada no primeiro programa, transmitido em horário nobre: Miss Goodall and the Wild Chimpanzees, com narração de Orson Welles.

Quando Hugo e Jane examinaram previamente o filme acabado, reclamaram que havia muitas imprecisões. Julgaram a narração de Welles flagrantemente a científica e, por insistência de Jane, parte do roteiro foi reformulada.

Até hoje, assistindo ao filme no laptop, Jane aponta defeitos. Esse leopardo não foi fotografado por Hugo, era do banco de imagens. Essa cena não é em Gombe, é no Serengeti. Quando Welles começa uma sentença com “Depois de procurar em vão por dois meses”, Jane fuzila: “Não é verdade que passei dois meses sem avistar um único chimpanzé. Isso é uma tremenda mentira”.

O filme, contudo, foi um sucesso comercial. Jane e Hugo tinham esperança de fazer outro projeto de filmagem e ter mais controle criativo, mas os executivos andavam com outras ideias. Queriam fazer mais com Jane em Gombe – e não necessariamente com Hugo. Jane era a estrela; Hugo, um coadjuvante.

Nos anos após as filmagens em Gombe, Jane e Hugo seguiram caminhos diferentes. Em 1967, tiveram um filho, Hugo Eric Louis van Lawick, conhecido pelo seu apelido, Grub.

Com o trabalho de Jane ancorado em Gombe e a paixão de Hugo por filmagens no Serengeti, a mais de 600 quilômetros, os dois se distanciaram. Em 1974, Jane e Hugo divorciaram-se. Em 1975, ela casou-se com Derek Bryceson, um alto funcionário do governo tanzaniano.

Grub, aos 8 anos, vivia com a avó e estudava em Bornemouth. Derek e Jane estavam casados havia apenas cinco anos quando ele morreu de câncer, em 1980. Depois de quatro décadas de carreira, Hugo morreu de enfisema, em 2002.

Quando entrevistei Jane em Gombe, fazia 55 anos que ela havia saído de um barco e pisara na praia de pedregulhos africana pela primeira vez. Ela ainda consegue visualizar a paisagem do Lago Tanganica daquele tempo: “É como se fosse uma outra vida, faz tanto tempo”.

É assim que Jane pensava que os chimpanzés a viam: como um deles, só que diferente. Aqui, a filha de Flo, Fifi, examina a blusa de Jane. “Eu fui absorvida pela vida na floresta”, escreveu Jane mais tarde.

A primatóloga ainda se lembra até das suas encenações, que hoje conta sorrindo.

No filme, Jane se vê aos 28 anos, na praia. É uma hora mágica, o pôr do sol. A exposição de Hugo é perfeita. Na tela, Jane põe um cobertor nos ombros, bebe em uma caneca de ágata.

Agora Jane é a narradora. “Essa caneca está vazia, eu juro. Não tem nada dentro”, diz ela.

Tony Gerber é um cineasta premiado e cofundador da Market Road Films, uma produtora de Nova York. Para a National Geographic, ele já escreveu e dirigiu 12 documentários.